sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Punição

Daqui a pouco ele vem deitar. Vou fingir que estou dormindo. Não vou ceder logo no primeiro dia da minha greve de sexo. Ele tem que aprender a respeitar meus sentimentos e naquela briga de ontem ele foi longe demais. Deitou. Esbarrou na minha bunda... Deu até um tesãozinho. Não, mantenha-se firme. Vou ficar mais na beira da cama pra não ter perigo.

Silêncio.

Será que ele não vai falar nada? Será que já pegou no sono? Ele mexeu... tá mais perto. Posso até sentir o calor dele... Mas nem vem que não tem! Se ele vier chegando aos poucos, daquele jeitinho manso quando tá querendo reconciliação, já falo logo que não quero e que não adianta insistir. Que negócio é esse? A gente briga feio um dia e no outro ele já vem querendo que eu esteja no clima de fazer sexo?

Ele tá parado a um tempinho já. Mas será que ele não vai nem tentar? Tô achando que ele aceitou essa greve de sexo fácil demais. Será que o desejo dele por mim diminuiu? Nossa, ele tá respirando mais pesado! Deve ter pegado no sono. Bom, vou dormir também, é o melhor que eu faço. Melhor trocar de posição, por que ficar na beira da cama é meio desconfortável.

Pronto, assim tá melhor. Hum... ele tá cheiroso. Adoro o cheiro dele quando sai do banho... Que vontade de chegar mais perto. De dormir abraçada.

Controle-se. Ele merece essa punição. Agora comigo é assim. Olho por olho, dente por dente. Ele fez alguma coisa pra me agradar, alguma coisa romântica? Eu o chupo até gozar na minha boca. Fez alguma surpresa que me deixou muito feliz? Faço sexo anal. Só assim mesmo pra ele ser mais romântico. Só usando o sexo como moeda de troca mesmo. É isso aí, tenho que me impor também senão como fica?

Ai, tô achando que perdi o sono. Xiii ele vai começar a roncar. Como pode ele dormir como uma criança recebendo um castigo desses? Será que ele não se importa nem um pouco? Preciso fazer xixi. Tomara que ele acorde, esse ronco tá me irritando já.

Voltei. Acho que o sono tá voltando. Ele mudou de posição. Parou de roncar, ainda bem. Espero que ele aprenda a lição, vamos ver. Hum... amanhã é sábado! Se rolar um café na cama eu monto em cima dele! Ai ai, seria tão bom... Acho que eu ia gozar rapidinho, depois ia ficar abraçadinha, falar o quanto o amo e que não quero brigar nunca, nunca mais... Ou será que espero ele dizer primeiro? Talvez seja melhor, ele também precisa demonstrar que está arrependido, que quer fazer as pazes, que ainda me ama... Será que ainda tem leite? Talvez ele precise comprar pão. Tomara que ele aproveite e lave a louça... Talvez eu vá ao salão de tarde... Minha unha tá horrível... Posso aproveitar e...

Dormiu.

Espelho

Desperto do me torpor. Estou tão fundo nela quanto poderia estar e ela me aperta e me suga, como se quisesse me tragar inteiro, como se quisesse ser penetrada pelo meu corpo, pela minha alma.

E então eu vejo o que nunca vi. Ela está em um transe, cada pequeno movimento despertando múltiplas reações. Uma embriaguez de prazer completamente descontrolada e lasciva, como se ela estivesse possuída e consumida, totalmente entregue aos seus sentidos, que se embaralham de forma desconexa e inesperada. O seu corpo inteiro servindo a esse imenso prazer.

Perto disso, o meu gozo fica pequeno, uma pequena explosão de track perto de uma bomba atômica. Mas guardo esse momento na memória e guardo por mim a satisfação de conduzi-la tão longe, satisfeito por satisfazê-la de forma tão intensa.

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Luz azul no meu rosto, nossa ele está tão fundo dentro de mim! O movimento da bunda dele, a minha cara de tarada... Que delícia meus seios roçando o peito dele... Estou perdendo o controle do meu corpo! Estou entrando em um mar de prazer, já não sei mais de onde vêm os estímulos. Estou sentindo o cheiro dos gemidos dele, a cor e a forma do seu pau me penetrando. Minha cabeça roda, meu corpo inteiro é um orgasmo. Eu gozo nos pés, nas costas, nos joelhos. Eu gozo inteira e quero mais, quero ser carne, quero ser prazer. Já não tenho mais corpo, sou uma energia descontrolada, sou uma explosão e me perco e quero me perder, pra depois me encontrar, saciada e descansar nos braços dele, agradecida pela viagem, agradecida por estar ali, por ter explorado terras virgens e agora ter voltado ao meu lar, ao meu porto seguro e descansar até a próxima jornada.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Amar

Amar é bom? Sim, muito. Amar é ruim? Talvez seja, em alguns momentos de angústia. Não importa. O importante é amar.
É ter amado. De verdade, de coração, com todas as forças. Se não for por isso, por que a vida valeria a pena?
O medo de amar é a pior covardia, é morrer em vida.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Representação

Ela não só acredita no drama, como o drama pra ela é vital. É uma necessidade, uma imposição. E na encenação desse drama sou um canastrão, pois não sinta nada além de tédio e impaciência. Não consigo interpretar o drama de forma convincente e isso é o que mais a frustra. Não que eu não tenha sentimentos. Eu os tenho, e muitos. Mas pra mim eles sempre estiveram no escuro, na coxia dentro de mim. A luz do palco os intimida e os distorce. E eu quero protegê-los disso, quero mantê-los puros. Meus sentimentos não são espetáculo, apesar dela insistir em ser plateia. Mas a única peça que me permito é um monólogo.

Biografia

Qualquer pessoa tem mais a me ensinar que um livro. Daí a força das biografias. Pessoas reduzidas a livros. Livros híbridos, metade carne metade papel.

Me recuso a viver de acordo com o comportamento de personagens que nada mais são que palavras no papel, que são sinapses na cabeça de um escritor qualquer.

Não.


Minha vida se baseia na vida. Sou uma imitação, uma versão, uma amostra, uma representação de muita coisa que existe e que já existia muito antes de eu nascer. Estou aprendendo a não sofrer mais com isso, a aceitar que não sou original, que sou uma mera colcha de retalhos de vida, de lembranças e emoções.


A minha biografia é uma soma de várias outras, de pessoas que me influenciaram, que me amaram, que me detestaram, que foram indiferentes. Tenho muitas páginas emprestadas e roubadas, sou um compilador e editor de vidas, me alimento de almas em um canibalismo mútuo.

E agora me ofereço em sacrifício. Pra mim, com certeza. Pra outros, talvez. Também sou alimento, delicioso e indigesto. Melhor comer cru.