sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Paisagem

Eu sou a paisagem que observo
O ar passa por dentro de mim
Sou irrelevante
A natureza é maior
A vida é maior
E saber disso me angustia
E sei que não deveria
O que quero com as grandes questões?
Antes cuidar da minha vida pequena
Antes tratar dos meus vãos problemas
Que horas dormir?
O que vou comer?
Alguém gosta de mim?
Estou me encontrando
Sou meu objeto de estudo
Sou a paisagem que pinto
A paisagem sou eu
E ela muda com as minhas pinceladas
E com o ponto de vista do observador

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

De Volta

Ontem eu sonhei com dragões
Mas aqui não era assim
Esse parque, essa quadra
Esses arbustos, a grama não era assim tão alta
Essas árvores têm outro cheiro
Por onde andou o jardineiro?
Cadê todo mundo?
Foram todos embora?
É maravilhoso estar de volta
Mas dá um aperto no coração...
Porque tudo passa
Nada é do mesmo jeito
Eu não podia ter voltado
Mas eu precisava
E essa decadência desaba sobre o meu peito
Será que eu aguento?
Esse mato, essas casas
Já não reconheço
Alguma coisa se perdeu
Eu me perdi
Em meio a vozes, lembrança
Passado
Não está mais vivo
Sua alma paira
Escapa pela janela das casas
Ontem sonhei com dragões
Que me devoravam

O mundo das palavras, o mundo dos homens

Existem dois mundos: o mundo das palavras e o mundo dos humanos. Desde tempos imemoriais, esses mundos vivem em harmonia, ou quase.

O mundo dos humanos e o das palavras se parecem em alguns aspectos e diferem radicalmente em outros. Os humanos insistem em impor regras às palavras. Tentam discipliná-las, adequá-las a normas e padrões. Não entenderam ainda que elas têm vontade própria. Por mais que queiramos limita-las, elas, por capricho, mudam todas as regras. Criam novos significados para elas mesmas, criam exceções, mudam sua grafia. Poucos têm controle sobre elas. A esses, é reservada a palavra gênio.

As palavras têm personalidade. Assim como os humanos, há palavras jovens, velhas, palavras velhas metidas a novas, sempre tentando parecer modernas. Há palavras que gostam de aparecer, estão sempre saltando da nossa boca, sem que queiramos. São ansiosas, afobadas. Há as palavras preguiçosas, que vêm depois de muito custo, são tímidas, não gostam do mundo dos humanos. Existem, também, as palavras metódicas, chatas na pronúncia ou na escrita, estão sempre querendo nos fazer errar. Quem ousa usá-las paga um preço e corre um grande risco.

Algumas palavras já estão bem desgastadas pelo uso, são chamadas lugares-comuns, ou chavões, algumas envelhecem sem perder o vigor, outras têm vida curta, algumas parecem novas pois são pouco usadas, outras se aposentam com pouco tempo de uso.

O fato é que dependemos das palavras e elas dependem da gente. Elas fazem pirraça às vezes, faltam na hora em que mais precisamos e vêm na pior hora possível. Elas são caprichosas, temperamentais, assim como nós. Nos identificamos com elas, escolhemos algumas a que temos mais apreço e algumas palavras nos escolhem também. Temos um longo relacionamento com elas. Elas são necessárias, complexas e voláteis. Elas nos fascinam e talvez seja por isso que as amamos tanto.

Por isso gostamos de encadeá-las em frases, parágrafos, livros. Queremos ver como elas irão se comportar juntas, se vão brigar entre si, se vão se entrelaçar em perfeita harmonia, se vão apenas se aturar. Cada palavra possui seu significado individual, mas nenhuma se basta sozinha, assim como nós. Palavras reunidas podem mudar uma pessoa. Pessoas reunidas podem mudar o mundo. O mundo das palavras, o mundo dos homens.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Everybody wants to rule the world

Eu não nasci pra comandar o mundo, nasci para comandar a mim mesmo.

Gigante

Visito o meu passado como um gigante.

- Ei, não era pra você estar aqui!

Olho pra baixo e vejo pequenas criaturinhas gritando comigo. Reconheço algumas. Vejo um primo, um amigo de infância, uma professora. Tem um socando meu calcanhar. Ando cuidadosamente para não esmagar ninguém, mas ainda não tenho controle total sobre o meu enorme corpo.

Vou caminhando indiferente a tudo. Vejo lugares familiares, visito minha escola de primário, mas já estou muito grande para entrar nela. Tento olhar lá dentro, mas bato acidentalmente com a cabeça na parede e a derrubo. Olho o pátio que já foi enorme pra mim, mas que agora me parece minúsculo.

Ando mais um pouco e vejo a faculdade onde me formei. Tento sentar em uma cadeira mas ela vira pedaços sob meu peso. Já estou grande demais para meus antigos sonhos.

Encontro meus pais e os carrego na palma da minha mão. Eles são mais novos que eu e estão assustados. Coloco-os de volta no chão, não sou uma ameaça.

Me sinto sufocado, já não há mais espaço pra mim. Meu passado é uma camisa de força e sinto que vou perdendo minhas ilusões, uma a uma. E isso dói. Mas sou um gigante e esses pequenos cortes não são capazes de me derrubar. Não mais.

Revisito o meu passado. Para destruí-lo.