Qualquer pessoa tem mais a me ensinar que um livro. Daí a força das biografias. Pessoas reduzidas a livros. Livros híbridos, metade carne metade papel.
Me recuso a viver de acordo com o comportamento de personagens que nada mais são que palavras no papel, que são sinapses na cabeça de um escritor qualquer.
Não.
Minha vida se baseia na vida. Sou uma imitação, uma versão, uma amostra, uma representação de muita coisa que existe e que já existia muito antes de eu nascer. Estou aprendendo a não sofrer mais com isso, a aceitar que não sou original, que sou uma mera colcha de retalhos de vida, de lembranças e emoções.
A minha biografia é uma soma de várias outras, de pessoas que me influenciaram, que me amaram, que me detestaram, que foram indiferentes. Tenho muitas páginas emprestadas e roubadas, sou um compilador e editor de vidas, me alimento de almas em um canibalismo mútuo.
E agora me ofereço em sacrifício. Pra mim, com certeza. Pra outros, talvez. Também sou alimento, delicioso e indigesto. Melhor comer cru.
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