A imperfeição das coisas
A distância entre o sublime e o grotesco não é assim tão longa
Não há beleza absoluta
Há sempre algo que destoa
Beleza demais enjoa
O belo é superficial
Ser imperfeito é ser real
Ser imperfeito é estar vivo
É sair do mundo das ideias
É deixar de ser frio e distante
É estar próximo, é estar dentro de nós
É ser ambíguo e contraditório
É provocar novas análises
É ser belo pra alguém
Ser imperfeito é ser humano
Mas procuramos negar nossa condição
Somos limitados e complexos
Queremos segurança e afeto
Buscamos a imortalidade
Buscamos a perfeição
Mas somos assim, imperfeitos
Queremos sempre o que não temos
Pensei em um poema perfeito
Para falar sobre imperfeição
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Adultério
Entramos no quarto dele. Ai acho que agora não tem mais volta. Nós vamos mesmo transar. Que delícia! A quanto tempo mesmo não faço amor? Três meses, quatro... nem sei.
Tô nervosa, será que eu ainda sei fazer sexo? É, sexo com outra pessoa que não o meu marido. Claro que sim né sua doida? Pára de paranoia, você é boa, ele não vive te elogiando? Menos de uns tempos pra cá, é verdade, mas pára de ficar pensando! Relaxa.
Xii... ele também está nervoso. Pelo fogo que apresentou no bar eu achei que já ia chegar rasgando a minha roupa assim que entrássemos na casa dele, igual em filme. Acho que a conversa sobre nossos casamentos deu uma esfriada nos ânimos... E essa garrafa de vinho que tomamos foi excessiva.
Ele está tirando a minha roupa... Parabéns, entrar pro clubinho dos que me viram nua. Meu primeiro namoradinho, com quem tive minha primeira vez, meu ginecologista, algumas depiladoras, aquele carinha com quem fiz sexo casual depois de bêbada, meu marido... Ele bem que podia ir mais rápido, assim vou acabar dormindo. Deixa eu ajudar o rapaz.
Acho que ele assustou um pouco com a minha atitude. Mas segundo ele, é justamente isso que o atraiu, o fato de eu ser tão diferente da esposa dele, o fato de eu não ser tão submissa e apática quanto ela. Então tá na hora de mostrar o meu fogo!
Começou, agora não tem mais volta, ele já está dentro de mim, que estranho... Não, não faz assim que eu não gosto... Mais devagar um pouco, não seja tão afobado. Ele é bem peludo, poderia ter dado uma aparada hein? Isso, assim tá bom... Mas não muda! Outra posição? Tudo bem, fazer o que, acho que não vou conseguir gozar mesmo. Quem diria que eu ia sentir falta do meu marido uma hora dessas... Ele pelo menos sabe o que eu gosto. Se ao menos ele ainda me desejasse como a alguns anos atrás. Mas eu também tenho a minha parcela de culpa nisso, é verdade. Falando em gozar... Ele já foi? Rápido não? Será que eu ainda pego o Carlos acordado? Posso pegá-lo de surpresa e terminar a noite gozando com ele. Que saudade disso... O que eu tô fazendo aqui? Quero ir embora, quero minha casa, minha cama, meu marido. Ai que arrependimento de ter feito isso! Mas nada está perdido. Olha a de sono, do palerma, dizendo que me ama! Como fui dar bola pra um cara como esse, meu Deus? A carência faz cada coisa com a gente... Calma lá, você não acha que está indo rápido demais? Agora tá dizendo que me quer todo dia. Mal sabe ele que nunca mais vai me ver.
Tô nervosa, será que eu ainda sei fazer sexo? É, sexo com outra pessoa que não o meu marido. Claro que sim né sua doida? Pára de paranoia, você é boa, ele não vive te elogiando? Menos de uns tempos pra cá, é verdade, mas pára de ficar pensando! Relaxa.
Xii... ele também está nervoso. Pelo fogo que apresentou no bar eu achei que já ia chegar rasgando a minha roupa assim que entrássemos na casa dele, igual em filme. Acho que a conversa sobre nossos casamentos deu uma esfriada nos ânimos... E essa garrafa de vinho que tomamos foi excessiva.
Ele está tirando a minha roupa... Parabéns, entrar pro clubinho dos que me viram nua. Meu primeiro namoradinho, com quem tive minha primeira vez, meu ginecologista, algumas depiladoras, aquele carinha com quem fiz sexo casual depois de bêbada, meu marido... Ele bem que podia ir mais rápido, assim vou acabar dormindo. Deixa eu ajudar o rapaz.
Acho que ele assustou um pouco com a minha atitude. Mas segundo ele, é justamente isso que o atraiu, o fato de eu ser tão diferente da esposa dele, o fato de eu não ser tão submissa e apática quanto ela. Então tá na hora de mostrar o meu fogo!
Começou, agora não tem mais volta, ele já está dentro de mim, que estranho... Não, não faz assim que eu não gosto... Mais devagar um pouco, não seja tão afobado. Ele é bem peludo, poderia ter dado uma aparada hein? Isso, assim tá bom... Mas não muda! Outra posição? Tudo bem, fazer o que, acho que não vou conseguir gozar mesmo. Quem diria que eu ia sentir falta do meu marido uma hora dessas... Ele pelo menos sabe o que eu gosto. Se ao menos ele ainda me desejasse como a alguns anos atrás. Mas eu também tenho a minha parcela de culpa nisso, é verdade. Falando em gozar... Ele já foi? Rápido não? Será que eu ainda pego o Carlos acordado? Posso pegá-lo de surpresa e terminar a noite gozando com ele. Que saudade disso... O que eu tô fazendo aqui? Quero ir embora, quero minha casa, minha cama, meu marido. Ai que arrependimento de ter feito isso! Mas nada está perdido. Olha a de sono, do palerma, dizendo que me ama! Como fui dar bola pra um cara como esse, meu Deus? A carência faz cada coisa com a gente... Calma lá, você não acha que está indo rápido demais? Agora tá dizendo que me quer todo dia. Mal sabe ele que nunca mais vai me ver.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Xamã
O velho Xamã, barbas longuíssimas, vinha caminhando; o seu filho bebê agarrado aos longos fios que descem pelo seu rosto. Não foram poucas as pessoas que perguntavam como ele conseguia se manter preso, mesmo com tão pouca idade e o Xamã respondia:
- Ele está se agarrando à vida. E continuava no seu passo lento.
- Ele está se agarrando à vida. E continuava no seu passo lento.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Nojentinha
Caíque chegou na escola, varreu o pátio com o olhar e lá estava ela: a Maria. Olhando pra ele com cara de nojinho. O menino estava com ranho escorrendo e nem percebeu. Mais uma vez, sentiu ódio dela, que era sempre a primeira a perceber suas ridiculices. Tentou achar algo nela para fazer careta e dizer "eca", mas não achou nada e teve mais ódio ainda. Caíque já sabia, naquela idade, que Maria era linda e sem defeitos e ele detestava isso. Como não tinha recurso, tirou o prendedor de cabelo da menina e saiu correndo. Hahahaha a Maria tá descabelada! Chamou os amiguinhos pra rir, mas ela tinha o coração de todos na mão e nenhum deles quis contraria-la. Momentos após a risada, bateu o remorso. Menos por tê-la chateado; mais por enfeiá-la, mesmo que fosse pouco. Passou um tempo, devolveu o prendedor. Ela aceitou displicentemente, como quem sabe que vai receber e não precisa fazer o menor esforço e, além disso, não agradeceu, nem chegou a lhe dizer palavra, limitou-se a olhá-lo com ar superior. Caíque nunca vai admitir, mas ficou triste com isso.
Não posso garantir, mas acaso pergunte à Caíque, hoje adulto, sobre Maria, ele provavelmente lembrará. Recordações agridoces.
Não posso garantir, mas acaso pergunte à Caíque, hoje adulto, sobre Maria, ele provavelmente lembrará. Recordações agridoces.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Fritting Away
From The Free Dictionary:
Each single day I live, each beer I drink, each steak I eat, each bad day I have, I'm fritting myself. I'm living just to fritter myself away and there is no way to avoid this, it's inevitable.
I'm wasting me, little by little, like an eraser, like a soap. I'd like to revert this, I'd like to increase myself, my body, my weight until I have the length of the world, then the length of the universe, and I could see the truth, the origin of life, God, everything. After this, It would be good to fritter myself away.
fritter
1. To reduce or squander little by little: frittered his inheritance away. See Synonyms at waste.
2. To break, tear, or cut into bits; shred.
Each single day I live, each beer I drink, each steak I eat, each bad day I have, I'm fritting myself. I'm living just to fritter myself away and there is no way to avoid this, it's inevitable.
I'm wasting me, little by little, like an eraser, like a soap. I'd like to revert this, I'd like to increase myself, my body, my weight until I have the length of the world, then the length of the universe, and I could see the truth, the origin of life, God, everything. After this, It would be good to fritter myself away.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Dias cinzentos
Em dias cinzentos como esse, quero estar em uma casinha aconchegante e com calefação, no interior da Inglaterra, vestindo uma jaqueta de moletom acolchoada e confortável, lendo um livro da Agatha Christie, tomando chá preto e esperando a minha avó gordinha, corada e bonachona terminar de assar os brownies, os cookies e a torta de mação pro chá das 17 em ponto.
Às 16:55 ela me acorda, pousando a mão carinhosamente no meu ombro, pois acabei caindo no sono no começo do capítulo XXVI, logo após o segundo assassinato do livro e que traz um twist interessante para a trama. Levanto um pouco aéreo, me espreguiço e sento à mesa. Fazemos uma pequena prece de agradecimento e comemos enquanto conversamos amenidades e pequenas fofocas acerca dos vizinhos e da família. Enquanto ela tira a mesa e lava a louça, volto com prazer renovado à leitura, sentado à janela e dando ligeiras olhadelas no dia que escurece lá fora. Depois de um tempo, deixo o livro de lado e vou para a sala, onde a minha avô faz tricô com um filhote de gato enrodilhado no colo. Ao notar minha presença ele vem manhoso, ronronando e esfregando a cabecinha adorável nas minhas pernas. Pula no meu colo e adormece enquanto assisto ao telejornal. Solto uma pequena imprecação ao saber do aumento dos impostos. A minha avó me olha desaprovadoramente por cima dos seus óculos em formato de meia lua e eu peço desculpas.
O telejornal termina e vou tomar um banho. Volto para assistir a um filme que passa na TV e minha avó dorme no meio, ela sempre dorme no meio. Termino de assistir lutando contra o sono, chamo-a para dormir na cama. Ela diz que está fine, thanks, mas acaba indo e reclamando que vai perder o sono. Deito lembrando do final feliz do filme e concluo que estou feliz também. O sono vem macio e durmo como um santo.
Às 16:55 ela me acorda, pousando a mão carinhosamente no meu ombro, pois acabei caindo no sono no começo do capítulo XXVI, logo após o segundo assassinato do livro e que traz um twist interessante para a trama. Levanto um pouco aéreo, me espreguiço e sento à mesa. Fazemos uma pequena prece de agradecimento e comemos enquanto conversamos amenidades e pequenas fofocas acerca dos vizinhos e da família. Enquanto ela tira a mesa e lava a louça, volto com prazer renovado à leitura, sentado à janela e dando ligeiras olhadelas no dia que escurece lá fora. Depois de um tempo, deixo o livro de lado e vou para a sala, onde a minha avô faz tricô com um filhote de gato enrodilhado no colo. Ao notar minha presença ele vem manhoso, ronronando e esfregando a cabecinha adorável nas minhas pernas. Pula no meu colo e adormece enquanto assisto ao telejornal. Solto uma pequena imprecação ao saber do aumento dos impostos. A minha avó me olha desaprovadoramente por cima dos seus óculos em formato de meia lua e eu peço desculpas.
O telejornal termina e vou tomar um banho. Volto para assistir a um filme que passa na TV e minha avó dorme no meio, ela sempre dorme no meio. Termino de assistir lutando contra o sono, chamo-a para dormir na cama. Ela diz que está fine, thanks, mas acaba indo e reclamando que vai perder o sono. Deito lembrando do final feliz do filme e concluo que estou feliz também. O sono vem macio e durmo como um santo.
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