Visito o meu passado como um gigante.
- Ei, não era pra você estar aqui!
Olho pra baixo e vejo pequenas criaturinhas gritando comigo. Reconheço algumas. Vejo um primo, um amigo de infância, uma professora. Tem um socando meu calcanhar. Ando cuidadosamente para não esmagar ninguém, mas ainda não tenho controle total sobre o meu enorme corpo.
Vou caminhando indiferente a tudo. Vejo lugares familiares, visito minha escola de primário, mas já estou muito grande para entrar nela. Tento olhar lá dentro, mas bato acidentalmente com a cabeça na parede e a derrubo. Olho o pátio que já foi enorme pra mim, mas que agora me parece minúsculo.
Ando mais um pouco e vejo a faculdade onde me formei. Tento sentar em uma cadeira mas ela vira pedaços sob meu peso. Já estou grande demais para meus antigos sonhos.
Encontro meus pais e os carrego na palma da minha mão. Eles são mais novos que eu e estão assustados. Coloco-os de volta no chão, não sou uma ameaça.
Me sinto sufocado, já não há mais espaço pra mim. Meu passado é uma camisa de força e sinto que vou perdendo minhas ilusões, uma a uma. E isso dói. Mas sou um gigante e esses pequenos cortes não são capazes de me derrubar. Não mais.
Revisito o meu passado. Para destruí-lo.
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