Existem dois mundos: o mundo das palavras e o mundo dos humanos. Desde tempos imemoriais, esses mundos vivem em harmonia, ou quase.
O mundo dos humanos e o das palavras se parecem em alguns aspectos e diferem radicalmente em outros. Os humanos insistem em impor regras às palavras. Tentam discipliná-las, adequá-las a normas e padrões. Não entenderam ainda que elas têm vontade própria. Por mais que queiramos limita-las, elas, por capricho, mudam todas as regras. Criam novos significados para elas mesmas, criam exceções, mudam sua grafia. Poucos têm controle sobre elas. A esses, é reservada a palavra gênio.
As palavras têm personalidade. Assim como os humanos, há palavras jovens, velhas, palavras velhas metidas a novas, sempre tentando parecer modernas. Há palavras que gostam de aparecer, estão sempre saltando da nossa boca, sem que queiramos. São ansiosas, afobadas. Há as palavras preguiçosas, que vêm depois de muito custo, são tímidas, não gostam do mundo dos humanos. Existem, também, as palavras metódicas, chatas na pronúncia ou na escrita, estão sempre querendo nos fazer errar. Quem ousa usá-las paga um preço e corre um grande risco.
Algumas palavras já estão bem desgastadas pelo uso, são chamadas lugares-comuns, ou chavões, algumas envelhecem sem perder o vigor, outras têm vida curta, algumas parecem novas pois são pouco usadas, outras se aposentam com pouco tempo de uso.
O fato é que dependemos das palavras e elas dependem da gente. Elas fazem pirraça às vezes, faltam na hora em que mais precisamos e vêm na pior hora possível. Elas são caprichosas, temperamentais, assim como nós. Nos identificamos com elas, escolhemos algumas a que temos mais apreço e algumas palavras nos escolhem também. Temos um longo relacionamento com elas. Elas são necessárias, complexas e voláteis. Elas nos fascinam e talvez seja por isso que as amamos tanto.
Por isso gostamos de encadeá-las em frases, parágrafos, livros. Queremos ver como elas irão se comportar juntas, se vão brigar entre si, se vão se entrelaçar em perfeita harmonia, se vão apenas se aturar. Cada palavra possui seu significado individual, mas nenhuma se basta sozinha, assim como nós. Palavras reunidas podem mudar uma pessoa. Pessoas reunidas podem mudar o mundo. O mundo das palavras, o mundo dos homens.
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