Uma mente confusa é capaz de produzir boas coisas? Pode, claro. Uma mente confusa é como um liquidificador. Você mistura várias ideias, sacode tudo e de lá sai um caldo, uma vitamina, que até pode ser saborosa e nutritiva. Uma mente confusa é como uma panela em que os pensamentos são misturados com uma colher de pau, em movimentos vigorosos, resultando em um mexido da mente, que sacia a fome e nada mais.
Já a mente organizada é alta gastronomia. É uma cozinha organizada, com tudo no seu devido lugar. Com potinhos de temperos, metodicamente identificados. Está tudo lá, à disposição do cheff: um punhadinho de ironia, uma pitada de humor. A faca do sarcasmo sempre afiada. Para as receitas elaboradas, sempre haverão os livros de receita do Machado de Assis, do Nabokov, em uma prateleira limpa, organizados alfabeticamente, prontos para a consulta.
Só assim para produzir os cogumelos de Paris, os salmões com alcachofras e os petit gateaus da mente. As iguarias sofisticadas, equilibradas, com estilo, com humor, ironia, melancolia e lágrimas na medida certa.
Para escrever bem é necessário arrumar sua cozinha, lavar sua louça, comprar boas facas, pesquisar os temperos brasileiros, ingleses, portugueses, experimentar, errar, tentar de novo.
A alma complexa não se contenta em apenas saciar a fome, ela quer ser encantada, quer ser surpreendida, quer a experiência máxima e a habilidade dos melhores mestres. Para ela, o fast food, o self service das ideias não é o bastante.
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