Em dias cinzentos como esse, quero estar em uma casinha aconchegante e com calefação, no interior da Inglaterra, vestindo uma jaqueta de moletom acolchoada e confortável, lendo um livro da Agatha Christie, tomando chá preto e esperando a minha avó gordinha, corada e bonachona terminar de assar os brownies, os cookies e a torta de mação pro chá das 17 em ponto.
Às 16:55 ela me acorda, pousando a mão carinhosamente no meu ombro, pois acabei caindo no sono no começo do capítulo XXVI, logo após o segundo assassinato do livro e que traz um twist interessante para a trama. Levanto um pouco aéreo, me espreguiço e sento à mesa. Fazemos uma pequena prece de agradecimento e comemos enquanto conversamos amenidades e pequenas fofocas acerca dos vizinhos e da família. Enquanto ela tira a mesa e lava a louça, volto com prazer renovado à leitura, sentado à janela e dando ligeiras olhadelas no dia que escurece lá fora. Depois de um tempo, deixo o livro de lado e vou para a sala, onde a minha avô faz tricô com um filhote de gato enrodilhado no colo. Ao notar minha presença ele vem manhoso, ronronando e esfregando a cabecinha adorável nas minhas pernas. Pula no meu colo e adormece enquanto assisto ao telejornal. Solto uma pequena imprecação ao saber do aumento dos impostos. A minha avó me olha desaprovadoramente por cima dos seus óculos em formato de meia lua e eu peço desculpas.
O telejornal termina e vou tomar um banho. Volto para assistir a um filme que passa na TV e minha avó dorme no meio, ela sempre dorme no meio. Termino de assistir lutando contra o sono, chamo-a para dormir na cama. Ela diz que está fine, thanks, mas acaba indo e reclamando que vai perder o sono. Deito lembrando do final feliz do filme e concluo que estou feliz também. O sono vem macio e durmo como um santo.
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